O Perigo de se Estar Sozinho
E o mais perigoso é que ninguém percebe. Porque, vistas de longe, ainda têm folhas.
Foi sobre isso que Jesus falou quando contou a parábola da figueira estéril.
Trouxeram a Ele uma notícia de sangue: galileus mortos por Pilatos dentro do templo. E, por trás da notícia, escondia-se a velha pergunta humana: que pecado eles cometeram para morrer assim?
Jesus lembrou também dos dezoito que morreram quando a torre de Siloé desabou e mostrou que aquelas pessoas não eram mais pecadoras do que os demais habitantes de Jerusalém.
A verdadeira questão não é por que os outros morreram, mas por que você ainda está vivo.
Somos especialistas em diagnosticar a esterilidade dos outros e cegos para a nossa.
E foi então que Jesus contou a história de uma figueira plantada numa vinha, que há três anos não dava fruto.
Mas guarde isto: o que decide o destino daquela figueira não é o tamanho do pecado dela.
Há figueira que seca sozinha. E há figueira que vive porque não está só.
É curioso que Jesus tenha encontrado figueiras em vários momentos do Evangelho. E, a cada figueira, um homem. E, a cada homem, uma lição sobre estar visto, estar acompanhado, estar sozinho.
A figueira de Natanael
Jesus o viu debaixo da figueira, no lugar onde o homem piedoso se recolhia para orar, longe dos olhos de todos. Natanael pensava estar só. E descobriu que havia sido visto antes que alguém soubesse o seu nome.
Há quem se sinta assim hoje. Escondido. Esquecido. Certo de que ninguém vê o que se passa por dentro.
Mas o Senhor te viu antes que alguém soubesse que você existia. Você nunca esteve tão sozinho quanto pensava.
A figueira de Zaqueu
Natanael estava debaixo. Zaqueu estava em cima. E o Senhor vê quem está embaixo e quem está em cima.
Zaqueu era publicano, ladrão, isolado pelo próprio pecado, rico de dinheiro e pobre de companhia, odiado pela cidade inteira.
E o que Jesus fez com o homem que o pecado isolou? Convidou-o a descer e se chamou para dentro da casa dele.
Da árvore solitária para a mesa da comunhão.
A figueira da parábola
A terceira figueira é a da parábola. E nela está o coração de tudo.
O dono veio buscar fruto e não achou. Três anos procurando, nada. Já João Batista havia avisado que o machado estava posto à raiz das árvores.
O machado mira a raiz.
O dono já tinha decidido: corta-a, por que ocupa a terra inutilmente?
Mas então surge, no texto, a figura mais bela da parábola, aquela que quase ninguém percebe: o vinhateiro.
Quando a sentença já estava dada, alguém se interpôs:
Senhor, deixa-a este ano, até que eu a escave e a esterque.
A tradição cristã sempre viu aqui um retrato de Cristo, que se coloca entre a figueira estéril e o machado e roga ao Pai por mais tempo em nosso favor.
E a figueira ganhou mais um ano. Não porque mereceu. Não porque se esforçou mais. Mas porque alguém intercedeu por ela.
O vinhateiro promete cavar até a raiz, onde ninguém vê, e adubar com esterco, com aquilo que no campo daquela gente era a coisa mais vil e mais suja que havia.
Deus não cuida das nossas raízes com perfume. Muitas vezes Ele cuida com aquilo que parece humilhação. A decepção que você passou, a frustração que te marcou, o cansaço que te dobrou, pode ser exatamente o adubo nas mãos do Vinhateiro.
Mas há uma verdade que não podemos suavizar. O Vinhateiro cava, aduba, intercede. Mas Ele não produz o fruto no teu lugar.
A graça de Deus vai à frente, prepara o terreno, abre o tempo, sustenta a raiz. Mas ainda espera a tua resposta.
Graça é Deus nos dar o que não merecemos; misericórdia é Deus não nos dar o que merecemos.
A figueira não merecia tanto tempo, e Deus deu: isso é graça. A figueira merecia ser cortada já, e não seria neste ano: isso é misericórdia.
Talvez você já não esteja mais no tempo da graça. Talvez você já esteja vivendo o último ano, o ano da misericórdia.
A figueira de Betânia
Ainda há uma quarta figueira no Evangelho. E o fim dela é terrível.
A caminho de Jerusalém, Jesus se aproximou de uma figueira à beira do caminho. Ela tinha folhas. Tinha aparência. De longe, prometia. Mas, de perto, não havia fruto algum. E aquela figueira secou desde as raízes.
A Escritura não nos explica por que uma figueira recebeu mais um ano e a outra secou. E não devemos colocar na boca do texto o que ele não diz. Mas fica um quadro que nos serve de advertência.
A figueira da parábola estava plantada na vinha, e tinha um vinhateiro rogando por ela. A de Betânia estava sozinha, à beira do caminho, fora da vinha, sem ninguém para interceder.
O perigo de estar sozinho não é, principalmente, estar fora da igreja. É estar dentro dela e seco mesmo assim.
É ter folha no meio dos irmãos e raiz ressequida por dentro.
David Wilkerson tinha uma palavra séria sobre o crente que seca dentro da igreja: o cristão estéril não murcha apenas para si. A secura dele transborda, esfria o lar, enfraquece os que estão por perto. Por isso a solidão espiritual é tão perigosa. Ela raramente fica só nela mesma.
A palavra final não é o machado
Por isso, não aponte o dedo. Se você é vinha, não julgue a figueira que ainda não deu fruto, porque a própria vinha também pode ser podada.
Mas a palavra que fica não é a do machado. É a do Vinhateiro.
Se você ainda está de pé nessa vinha, depois de tantos anos sem fruto, não é porque você merece. É porque há Alguém intercedendo por você.
Você se acha cortado, mas há Alguém ajoelhado na sua raiz pedindo mais um ano por você.
Repare como a parábola termina. Ela não termina. Jesus corta a história no meio. Não nos diz se a figueira deu fruto ou se foi cortada.
E isso não é descuido do texto.
É o Senhor pondo a faca na tua mão e dizendo: a última linha desta história quem escreve é você. Hoje. Não amanhã.
A figueira não sabe quantos anos ainda lhe restam. Talvez este seja o último.
Mas saiba: você não está sozinho como pensava. Não está só na sua raiz, porque o Vinhateiro está ali, cavando, intercedendo. Não está só na vinha, porque foi plantado no meio dos irmãos para ser cuidado e para cuidar.
Não seque sozinho à beira do caminho, com folhas bonitas e raiz morta, quando há um Vinhateiro de mãos feridas chamando você de volta ao fruto.
Deus está observando tudo, e deseja te dar o fim que você anseia: dias melhores, fruto bom, vida que não murcha.
Mas só haverá esse fim com Cristo na tua raiz.
Volte ao Vinhateiro enquanto é o teu ano.
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