O DIA DEPOIS
Marcos 2 nos apresenta uma das cenas mais marcantes do ministério de Jesus em Cafarnaum. Alguns dias depois dos acontecimentos narrados no capítulo anterior, Jesus volta à cidade e rapidamente a notícia se espalha: Ele estava em casa. Em pouco tempo, o lugar fica completamente cheio. Não havia espaço nem mesmo junto à porta.
No capítulo 1, muitos haviam testemunhado curas, libertações e manifestações extraordinárias do poder de Deus. Agora, "alguns dias depois", outra história começa a ser escrita. Um homem paralítico, incapaz de chegar sozinho até Jesus, é conduzido por quatro pessoas que se recusam a permitir que a multidão se transforme no fim do caminho.
Se não aconteceu antes, ainda existe o dia depois.
Nem todas as coisas acontecem quando imaginamos. Nem todas as respostas chegam na primeira oportunidade. Há experiências que Deus realiza alguns dias depois. O fato de alguém ter vivido ontem aquilo que você ainda espera não significa que Deus se esqueceu de você.
Contrastes entre os capítulos 1 e 2
Há contrastes interessantes entre os dois capítulos. No capítulo 1, os céus se abrem; no capítulo 2, o telhado se abre. O Espírito desce sobre Jesus; depois, um paralítico desce pelo telhado. Jesus é conduzido pelo Espírito; agora, um homem precisa ser conduzido até Jesus. Deus elogia o Filho amado; os religiosos criticam Jesus.
A vida também possui esses contrastes. Existem dias em que somos consolados e outros em que precisamos consolar. Há momentos em que recebemos reconhecimento e outros em que enfrentamos críticas. Há dias em que o céu parece se abrir e outros em que parece que a casa está caindo sobre nós.
Entretanto, em todos esses cenários, Jesus continua sendo o mesmo.
1. A casa onde Jesus está
Marcos não identifica claramente o proprietário da casa. Isso, porém, é secundário. Mais importante do que saber de quem era a casa é saber quem estava dentro dela.
Jesus estava ali, e estava anunciando a Palavra.
A marca de uma casa onde Jesus está é a prioridade da Palavra.
A presença de Cristo atraiu tanta gente que não havia mais espaço. A casa estava cheia, mas justamente naquele momento surgiria um problema: quem mais precisava chegar perto de Jesus não conseguia entrar.
2. O problema não é a porta
A porta estava ali. O problema era a multidão que ocupava o caminho.
Às vezes, pessoas podem estar perto das coisas de Deus e, ainda assim, tornarem-se obstáculos para quem está tentando se aproximar. Jesus denunciou aqueles que fechavam aos homens o Reino dos céus, enquanto o Evangelho nos chama para facilitar o caminho daqueles que precisam chegar até Cristo.
Religião fecha a porta; o Evangelho abre.
O problema nem sempre é a porta. Às vezes, é quem está nela.
3. Quando as portas de baixo se fecham
A entrada normal estava impedida pela multidão. Aqueles homens, entretanto, não desistiram. Subiram ao telhado, abriram uma passagem e começaram a baixar o paralítico diante de Jesus.
Quando as portas de baixo se fecharem, portas de cima se abrirão para você!
Aquela cena também nos mostra algo sobre aproximação de Deus: para chegar mais perto de Jesus, aquele homem precisou descer.
Quanto mais perto queremos estar dEle, mais precisamos descer.
Ali podemos perceber quatro olhares de Jesus: para o alto, vendo a fé daqueles homens; para baixo, contemplando a necessidade do paralítico; ao redor, observando os críticos; e para dentro, conhecendo aquilo que os escribas pensavam em seus corações.
4. Fé que age e amigos que carregam
Marcos não registra nenhuma palavra dos quatro homens. Também não registra qualquer discurso do paralítico antes da intervenção de Jesus. Mas registra aquilo que fizeram.
A fé pode ser sem palavras, mas não pode ser sem ação.
O texto não os chama expressamente de amigos, mas aquilo que fizeram revela compromisso, disposição e sacrifício. Eles carregaram um peso que não era deles para levar aquele homem ao lugar onde ele sozinho jamais conseguiria chegar.
O contraste com o paralítico de Betesda é marcante. Depois de tantos anos naquela condição, ele declarou a Jesus: "Senhor, não tenho homem algum". Em Cafarnaum, porém, havia quatro homens dispostos a carregar o paralítico.
Amigos levam onde o dinheiro não pode levar.
E a unção de Deus leva onde nem os amigos podem levar.
Existem momentos em que Deus muda nossa história colocando pessoas no nosso caminho. Por isso, relacionamentos precisam ser cultivados. Há caminhos em que precisamos carregar alguém, e há dias em que seremos nós que precisaremos ser carregados.
5. Primeiro o que você precisa
Quando finalmente o paralítico chega diante de Jesus, todos poderiam esperar a ordem: "Levanta-te". Mas Jesus começa de outro lugar:
"Filho, perdoados estão os teus pecados." Marcos 2:5
Ele buscava a cura. Jesus começou pelo perdão.
Nem sempre Deus dá primeiro aquilo que queremos. Primeiro, Ele trata aquilo de que realmente precisamos.
O pecado é a enfermidade da alma. O corpo daquele homem necessitava de cura, mas sua necessidade espiritual era ainda maior.
A palavra italiana perdonare oferece uma imagem muito significativa para pensarmos sobre o perdão: dar plenamente, entregar, renunciar. Homileticamente, ela nos lembra que perdoar também significa recusar-se a continuar amarrado àquilo que nos feriu.
E ninguém expressou essa entrega de maneira mais completa do que Cristo. Ele não apenas anunciou o perdão. Ele entregou a si mesmo para que o perdão se tornasse possível.
A cura física viria em seguida, mas serviria para demonstrar algo ainda maior: Jesus possuía autoridade para perdoar pecados.
Os escribas questionaram essa autoridade. Para eles, aquela declaração era uma blasfêmia. O perdão dos pecados estava associado à expiação. Mas aquilo que eles não compreenderam, João Batista havia anunciado:
"Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo." João 1:29
Podemos passar por enfermidades, crises, perdas e dificuldades e, ainda assim, conservar dentro de nós uma alegria que outras pessoas não conseguem compreender. Existe uma razão para isso: fomos alcançados pelo perdão de Deus.
O maior milagre que o pecador pode receber é o perdão dos seus pecados.
6. O Filho do Homem tem poder
Jesus então revela a finalidade da cura que estava prestes a realizar:
"Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar pecados (...) a ti te digo: Levanta-te, e toma o teu leito, e vai para tua casa." Marcos 2:10-11
"Filho do Homem" é o título que Jesus mais usou para se referir a si mesmo e remete à extraordinária visão de Daniel 7, na qual alguém semelhante ao Filho do Homem recebe domínio, honra e um Reino eterno.
Aquele que estava sentado naquela casa de Cafarnaum não era apenas mais um mestre. Diante deles estava aquele que possuía autoridade sobre o pecado, sobre a enfermidade e sobre a vida dos homens.
Então Jesus ordenou que o paralítico se levantasse.
Ele entrou deitado, saiu andando.
Entrou carregado, saiu carregando.
Não o deixaram passar pela porta; agora todos precisavam vê-lo saindo.
Entrou doente, saiu sarado.
Entrou perdido, saiu salvo.
"Nunca tal vimos!"
O seu dia depois
A história começou com um homem que não conseguia chegar até Jesus e terminou com esse mesmo homem atravessando a multidão com o leito nas mãos.
Aquilo que antes o carregava agora era carregado por ele.
Talvez você esteja olhando para aquilo que aconteceu ontem e perguntando por que ainda não aconteceu com você. Marcos simplesmente diz: "alguns dias depois".
Há capítulos que não terminam quando pensamos. Há respostas que não chegam no primeiro momento. Há situações em que Deus ainda escreverá uma continuação.
Se não aconteceu antes, não significa que terminou.
Ainda existe o dia depois.
E acima de qualquer bênção temporal permanece a maior verdade desta passagem: Jesus Cristo tem autoridade para perdoar pecados. Ele é o Filho do Homem, aquele que morreu, ressuscitou e voltará com poder e grande glória.
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