sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O Perfume e as moscas

O perfume e as moscas

Eclesiastes 9:18 – 10:1

“Melhor é a sabedoria do que as armas de guerra, porém um só pecador destrói muitas coisas boas. As moscas mortas fazem com que o unguento do perfumista se corrompa e lance de si mau cheiro; assim é para com o famoso em sabedoria e em honra uma pouca de estultícia.”

Todos nós já entramos num lugar bonito, arrumado, preparado com carinho, e demos meia-volta por causa de um cheiro. Não foi preciso investigar. O nariz decidiu antes da razão. E ninguém pergunta o tamanho da coisa que estragou o ambiente. Só se pergunta como sair dali.

É essa a cena que Salomão coloca diante de nós. E ele a coloca falando de liderança.

1. O perfume custa caro

O texto não fala de um óleo qualquer. Fala do unguento do perfumista. Em hebraico, o perfumista é o roqueach, o mesmo ofício que aparece em Êxodo 30, quando Deus manda preparar o óleo santo da unção: mirra, canela, cálamo, cássia, azeite de oliveira, cada ingrediente pesado na medida exata, misturado com paciência, num processo que levava tempo e não podia ser apressado.

Isso é o que o versículo coloca de um lado da balança.

E é assim que se constrói o nome de um líder. Ninguém acorda respeitado. O respeito é composto lentamente: uma palavra cumprida aqui, uma visita feita ali, uma noite mal dormida por causa de um irmão em crise, um dízimo entregue com fidelidade quando o mês não fechou, anos de presença em cultos onde ninguém contou quem estava. Cada gesto desses é uma gota no frasco. Ninguém vê o frasco enchendo. Só se percebe o perfume quando ele já está pronto.

2. A mosca é pequena

Do outro lado da balança, o que Salomão coloca? Não coloca um escândalo. Não coloca uma queda pública. Ele coloca moscas. E, para não deixar dúvida, ele explica a figura no fim do versículo: uma pouca de estultícia.

Aí está o ensino, e ele é desconfortável. O perigo maior da liderança não é o pecado grande, que todos reconhecem e do qual todos se guardam. É a tolice pequena. É o comentário feito no grupo, aquele que a gente chama de desabafo. É a meia verdade dita para se sair bem de uma situação. É o compromisso assumido e não cumprido, e depois outro, e depois outro, até virar fama. É a resposta atravessada dada ao irmão que a gente acha que pode tratar assim porque tem intimidade.

Nenhuma dessas coisas derruba um homem. Todas elas, juntas, fazem o frasco azedar.

Repare que o verso anterior já tinha dito a mesma coisa por outro ângulo: um só pecador destrói muitas coisas boas. A divisão de capítulos separou duas frases que nasceram juntas. Salomão está dizendo que existe uma desproporção cruel na vida: destruir é sempre mais barato do que construir.

A mosca não trabalhou nada. O perfumista trabalhou meses. E a mosca venceu.

3. Ninguém vê a mosca cair

Há um detalhe no hebraico que vale a pena. O verbo ali não descreve um estrago instantâneo. Ele descreve fermentação, o óleo borbulhando, azedando por dentro. É um processo.

Quer dizer: entre a mosca cair e o cheiro aparecer, passa um tempo. E, durante esse tempo, o frasco continua bonito por fora, na mesma prateleira, com o mesmo rótulo, e o dono nem desconfia.

É por isso que quase nenhum líder percebe o momento em que começou a azedar. A gente percebe depois, quando o cheiro já está no ambiente, quando os irmãos já se afastaram, quando a reunião já esfriou e a gente não sabe explicar por quê.

4. Quem sente o cheiro é o outro

E aqui está a parte mais séria. O nosso nariz se acostuma com o nosso próprio cheiro. Quem passa perfume de manhã não sente mais o perfume ao meio-dia, mas todo mundo em volta sente. Nós somos as últimas pessoas a saber como cheiramos.

Por isso, irmão que lidera precisa de irmão que fale a verdade. Não de quem elogia, que isso não falta. De quem chega perto e diz: tem alguma coisa azedando aí. Quem se cerca só de gente que concorda está construindo um frasco que ninguém vai poder abrir.

Conclusão: o perfume que não é nosso

Eclesiastes é honesto até o fim, e por isso ele não nos dá a solução aqui. Ele nos dá o diagnóstico e nos deixa com ele na mão. O óleo azedou. E agora?

A resposta está fora de Eclesiastes. Está em 2 Coríntios 2:14 a 16.

Para entender o que Paulo escreve ali, é preciso ver a cena que ele tinha na cabeça. Quando um general romano conquistava uma vitória grande, o Senado podia conceder a ele a maior honra da cidade: o triunfo. Era um desfile. O general entrava em Roma numa carruagem, subia a Via Sacra até o alto do Capitólio, e atrás dele vinha tudo o que a guerra tinha produzido: os carros com os despojos, os quadros com as cidades tomadas, os soldados. E vinham também os prisioneiros, acorrentados, caminhando no mesmo cortejo.

Ao longo de todo o percurso queimava-se incenso. A cidade inteira sentia. Antes de ver o desfile virar a esquina, Roma já sabia, pelo cheiro, que alguém havia triunfado.

“Graças a Deus, que sempre nos conduz em triunfo em Cristo, e por meio de nós manifesta em todo lugar o perfume do seu conhecimento.”

Repare em quem faz o quê. O triunfador é Cristo. Nós somos conduzidos. Paulo não se coloca na carruagem ao lado do vencedor. Ele se coloca no cortejo, entre os que foram alcançados por Ele. E como não poderia ser diferente, se aquele homem era Saulo de Tarso, inimigo declarado, capturado no meio da estrada de Damasco por Aquele mesmo a quem ele perseguia.

E aqui está a diferença entre os dois perfumes desta reflexão. O unguento de Eclesiastes é fabricado pelo perfumista, guardado no frasco dele, e depende dele para não azedar. Uma mosca acaba com meses de trabalho.

Já o incenso do triunfo não pertence a ninguém do desfile. Não foi composto pelos que caminham. Eles não o protegem, não o carregam no bolso, não podem estragá-lo. Ele queima porque houve uma vitória, e a vitória não foi deles.

É isso que muda o peso das nossas costas. O nosso frasco vai azedar de vez em quando, porque somos humanos e porque a estultícia pequena mora perto. Mas o perfume que sustenta a nossa vida e a nossa liderança nunca foi nosso. É d'Ele.

Nós apenas caminhamos no cortejo onde Ele está sendo anunciado, e o cheiro que fica no ambiente é o cheiro da vitória d'Ele, não da nossa competência.

Paulo ainda acrescenta uma palavra dura: esse mesmo perfume é sentido de dois modos. Para os que estão sendo salvos, cheiro de vida para vida. Para os que se perdem, cheiro de morte para morte. O aroma é um só. O que muda é o coração de quem o recebe.

Não somos responsáveis pela reação de cada pessoa que nos cerca. Somos responsáveis por não deixar que a nossa vida cheire a outra coisa.

Deixo, por fim, duas perguntas.

A primeira: que mosca pequena está caindo no meu frasco e eu já parei de notar?

A segunda, mais importante: eu ainda estou caminhando no cortejo d'Ele, deixando que Ele exale por mim, ou já faz um tempo que estou tentando cheirar bem sozinho?

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